Onze: Contradição


Esperando o trem das onze não via os minutos passarem. Meu relógio parecia ter parado no tempo, literalmente. Eu queria que aquele trem chegasse logo, depois de um dia cansativo de trabalho, só precisava chegar em casa. Já tinha parado de me lamentar por aceitar este emprego do outro lado da cidade, mas nunca tinha estado tão arrependido quanto agora.

Até que o ponteiro do relógio resolvesse se mover, eu olhava para aquela menina, tão triste, de olhos negros brilhantes. Ela estava sentada no banco, tão serena, esperando algo, alguém, esperando a vida. Imagine só! Tudo que ainda teria pra viver! As inseguranças do primeiro beijo, a primeira viajem sem os pais, o primeiro dia de aula no ginásio, as primeiras decepções amorosas, inseguranças com o corpo, vitórias, derrotas, tudo! Conseguia me ver naquela menina, era como se fosse um espelho que refletia minha alma, minha alma incapaz. Apesar de todas as considerações do momento, a menina, minha alma, o trabalho, a vida, o que mais me importava era o tempo. Afinal, porque não passava?

A menina continuava ali, parada, como o tempo. Segurava aquela boneca de pano como se fosse um diamante raro e extremamente precioso. O movimento que a menina fazia com seus pés, vestindo aquele "all star" verde era hipnotizante, só conseguia me desligar do vai e vem psicodélico para olhar meu relógio e ver -mais uma vez- que ainda não havia passado muito tempo. Os cabelos da menina pareciam ser tão macios! Ah, aqueles cabelos negros repicados! Poderia me perder facilmente naquele labirinto embaraçado. Mergulhar num mar de possibilidades. Era como se eu- mesmo a um ou dois metros de distância - pudesse sentir o cheiro de chocolate que seus cabelos exalavam. Ela era diferente, eu sabia, eu sei que é.

Percebi que a menina levava uma mochila nas costas. Uma mochila vermelha. O zíper estava semiaberto e por acaso –ou não- consegui ver o livro que carregava. Meu espírito curioso queria muito saber que livro era aquele. Parecia ser bem velho, com várias marcações. Também tinha uma pasta. Quantos segredos podiam estar guardados dentro daquela mochila? Quantas histórias aquela menina encantadora, porém obscura, poderia me contar? Fascinado com a pequena menina que me despertara tantas emoções, resolvi ir falar com ela. Antes de tomar tal atitude, olhei, sem me importar tanto, para o relógio. Eram onze horas! Meu trem já me esperava. Entrei apressadamente, lamentando por não ter conversado com a menina antes. Pela janela, vi uma mulher fumando um cigarro puxando a menina pela mão. A menina olhou para trás apenas uma vez, mas me disse tudo com aqueles grandes olhos negros. A menina se foi.  Afinal, porque o tempo tem que passar tão rápido?

This entry was posted on segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 and is filed under ,. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

One Response to “Onze: Contradição”

  1. E com ela ficou toda a infância, quando gostaríamos que o tempo passasse rápido pra crescer, ser gente grande e poder fazer o que gente grande faz. E quando crescemos mal percebemos o tempo que se foi até nos depararmos novamente com a doce ingenuidade e sutileza que atravessa a nossa frente.

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