Era um dia qualquer, mais
precisamente uma tarde de inverno caloroso, em que
conheci a minha sereia. Óbvio que não sabia que aquela criatura franzina, magra
e que me deixava tão atraído por seu sorriso amarelo era uma majestosa sereia,
mas já sentia que algo muito forte nos unia e afastava. Na primeira vez que saímos
de fato, não esperava ficar tão hipnotizado com sua capacidade intelectual e
aqueles olhos ora verdes, ora não, que me faziam perder num labirinto do qual
eu não deixaria de sair nunca. Mas foi o que aconteceu.
Quando conversávamos toda aquela fumaça azul esverdeada que saia da boca dela preenchia todo o espaço entre nós, e me deixava num frenesi tão incrível que não conseguia terminar uma frase que fosse. Quando ela falava dos seus livros, sua capacidade de amar âncoras e grandes extensões de água, as palavras vinham como balas, que atravessavam meu peito e me faziam sangrar com prazer. Depois da primeira vez em que ela, mesmo sem querer, havia me machucado com suas palavras, eu percebi. Era ela a sereia que estava esperando por tanto tempo.
Infelizmente descobri que a sereia tinha uma espécie de pacto. Não sei ao certo se era um pacto amoroso, de sangue, com o diabo, Netuno ou por divertimento [...] A única coisa que eu sabia é que tinha que destrui-lo, a sereia tinha de ser minha! Depois de manipular a situação, finalmente descobri e destruí o pacto que unia a sereia com um humano tão deplorável que prefiro abstrair de minhas lembranças. A atitude inconsequente não me fez chegar mais perto dela, apenas nos afastou por alguns dias.
Quando voltamos a conversar, a sereia já não era mais a mesma. Livre de pactos e barreiras era como se me apaixonasse por ela cada dia mais. Assim como minha paixão, também aumentava a força que nos unia, e ao mesmo tempo afastava. Chegamos a flutuar horas e horas sem falar uma única palavra. Mesmo assim, a boca carnuda, porém pequena, os olhos levemente puxados e a feição doce, delicada, sensual e cheia de malícia que possuía me atraiam mais a cada dia. Além, é claro, das palavras que sempre me feriam e me deixavam nas nuvens de prazer.
Já faz algum tempo que não a vejo, espero que não tenha voltado para o poço profundo e escuro no qual nunca deveria ter entrado. Espero que esteja livre, e de minha parte está. Sem minhas palavras consideradas agressivas, meu ciúme obsessivo, e minha capacidade de deixa-la mais mal do que cinco minutos atrás. Encontrei minha sereia, mas será que ela me encontrou? Será que eu realmente quero uma sereia? Perguntas e mais perguntas.