Ela
segurava aquelas cartas com tanta delicadeza e felicidade que nem parecia estar
jogando. Usava luvas de veludo pretas, um anel de diamantes negros e tinha um
batom quase tão vermelho quanto sangue ruim. Sua feição criava e recriava um
espectro em minha amarga alma. A garota era um veneno, e não media esforços
para conseguir o que queria, no jogo, no amor, no trabalho, na vida.
Estava lá,
sentada a leste, numa mesa redonda. Jogava com mais três pessoas. A cada
cartada ela sentia seu peito vibrar em luto pela arma descartada. A cada
vitória ela sentia duas mãos tremerem a felicidade em sensíveis picos de
adrenalina. Não poupava risos, mostrava seu sorriso todas as vezes que
conseguia. Também não poupava palavras, que geralmente, de tão frias,
contrastavam com sua expressão e deixavam o ambiente em um clima ameno (de
guerra).
Por vezes
ficava séria ao esperar o momento certo pra rir de novo. Nas pausas dramáticas
que fazia antes de usar um coringa tentava ficar pronta para captar toda a
energia fugas do desapontamento que viria no olhar de seus companheiros de
jogo. Atacava como rainha, mesmo que apenas em seu ‘reino mental’. Reino que
era dominado pelo fogo, dando margem a interpretação de seus colegas, que
muitas vezes a compararam com o próprio diabo.
É óbvio que
não era de toda malévola, tinha lá seus suspiros de criança ao se decepcionar.
Também mostrava traços de ingenuidade ao falar certas frases. Mas mesmo assim
continuava lá, fria como a neve, dura como pedra. Não se deixaria derrubar. Uma
“Dama De Ferro”? Acho que ela prefere “Rainha De Copas”! Talvez sim, talvez
não. Talvez apenas mais uma carta no baralho.