Embaralhe Mais Uma Vez

Ela segurava aquelas cartas com tanta delicadeza e felicidade que nem parecia estar jogando. Usava luvas de veludo pretas, um anel de diamantes negros e tinha um batom quase tão vermelho quanto sangue ruim. Sua feição criava e recriava um espectro em minha amarga alma. A garota era um veneno, e não media esforços para conseguir o que queria, no jogo, no amor, no trabalho, na vida.

Estava lá, sentada a leste, numa mesa redonda. Jogava com mais três pessoas. A cada cartada ela sentia seu peito vibrar em luto pela arma descartada. A cada vitória ela sentia duas mãos tremerem a felicidade em sensíveis picos de adrenalina. Não poupava risos, mostrava seu sorriso todas as vezes que conseguia. Também não poupava palavras, que geralmente, de tão frias, contrastavam com sua expressão e deixavam o ambiente em um clima ameno (de guerra).

Por vezes ficava séria ao esperar o momento certo pra rir de novo. Nas pausas dramáticas que fazia antes de usar um coringa tentava ficar pronta para captar toda a energia fugas do desapontamento que viria no olhar de seus companheiros de jogo. Atacava como rainha, mesmo que apenas em seu ‘reino mental’. Reino que era dominado pelo fogo, dando margem a interpretação de seus colegas, que muitas vezes a compararam com o próprio diabo.

É óbvio que não era de toda malévola, tinha lá seus suspiros de criança ao se decepcionar. Também mostrava traços de ingenuidade ao falar certas frases. Mas mesmo assim continuava lá, fria como a neve, dura como pedra. Não se deixaria derrubar. Uma “Dama De Ferro”? Acho que ela prefere “Rainha De Copas”! Talvez sim, talvez não. Talvez apenas mais uma carta no baralho.


This entry was posted on terça-feira, 8 de janeiro de 2013 and is filed under ,. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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