Archive for 2013

EGOCENT(RISM)O

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Abri a janela, entrei nos tempos de inverno quente. Meu ego continua andando pelas avenidas com uma toca de tricô, uma bengala de marfim caro e seus óculos escuros Dolce&Gabana. Minha extrema futilidade continua tecendo tapetes para que eu mesmo possa sujar. Ser fútil me faz esquecer a dor, dor que –ao que me parece– já se foi. Afinal, meus espelhos já não refletem gotas de sangue. Minhas feridas já estão mais do que cauterizadas. Cauterizadas pela raiva. Raiva que me fez pintar o céu de cinza por mais vezes que pude contar. Raiva que me fez andar numa corda bamba entre cérebro e coração. Raiva que me fez ser assim, tão fútil, tão eu. 

Parede Branca

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Poderia ficar sentada naquele banco por mais seis horas que nunca conseguiria entender. Culpar a minha família numa hora dessas seria muita falta de senso moral. O inferno deve ter congelado, afinal tive um - ao menos um - pensamento que considerei correto. Já não sabia mais o que fazer, meus olhos pareciam estar sendo pressionados e uma dor angustiante tomara conta das minhas têmporas. Massageá-las tornou-se praticamente impossível com a ponta dos dedos tão gélida.

Na noite em que saí de casa não pensei que me tornaria este monstro. Na verdade, eu já era, só faltava deixar sair. Mesmo sem poder contar, sabia que a cada hora que passava, meus olhos doíam mais. Ardiam em chamas de culpa. Se alguém faz algo ruim a você, você retribui, não é mesmo? Mesmo com as mais diversas desculpas, eu ainda me culpava. E provavelmente continuaria me culpando, para sempre. Não há outra coisa para pensar aqui.


Perdia-me no labirinto branco que se formava na parede. Parede branca. Imaginava mil maneiras de me livrar do peso que estava sobre mim. Eu ainda escutava minha mãe me chamando. Ela gritava sem parar meu nome. Lúcia! Lúcia! E as palavras tornavam-se uma fumaça lilás que preenchia todo o espaço entre mim e a parede. Parede Branca. Desta vez toda branca, sem sangue algum, nem de mamãe, nem de ninguém. Sabia que tinha feito algo errado. Tudo bem, aceito a condenação. Mais alguns anos nesta solitária vão me fazer bem.

Necessidade: Nebulosa

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Já perdi as contas de quantas vezes o final mudou, a grande medalha, o pote de ouro, o troféu. Nestas fases incertas, as quais nos taxam durante toda a vida, meu objetivo nunca foi o mesmo. Hoje, mais do que tudo,ele se define na simples, porém árdua, atitude de limpar as lentes dos meus óculos.

Busquei durante toda esta jornada cansativa, e, diga-se de passagem, prazerosa, uma flanela limpa. Um pedaço de pano, não qualquer pedaço de pano, afinal não quero riscar minhas lentes, tornando minha visão ainda mais desgostosa. Um pano macio, talvez uma manga com cheiro de amaciante.

Deleitar nossos olhos com cenas marcantes nunca foi difícil, difícil é fazer com que enxerguem –vocês– a beleza das pequenas coisas. É mais do que um par de óculos precisando de uma limpeza, são milhões deles, em todos os lugares. Milhões de mentes precisando de uma faxina. Uma faxina que, é claro, deixe peculiaridades subjetivas em pé, e extermine apenas os coliformes que formam seu pré-conceito ao analisar aquela, esta, qualquer figura. Você pode fazer a limpeza sozinho, mas se precisar de ajuda, ah, uma empregada doméstica não está cobrando barato.

Não entendo esta necessidade de embaçar as lentes alguns minutos após serem limpas. Cobrir o sol com a peneira não vai adiantar, não por muito tempo. As reles réstias de luz vão fazer o rosto esquentar, arder, demore quanto tempo for. Precisará de um guarda-sol, mas, como vai encontrá-lo -no meio da bugiganga do sótão- com as lentes sujas?

Playlist De Quarta

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Talking Heads - Psycho Killer



System Of A Down - Lonely Day



Foster The People - Call It What You Want


Melanie Martinez - Toxic 


Legião Urbana - Tempo Perdido







Artefato De Fogo

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Nunca tive medo da morte, meu medo é da capacidade de certas pessoas de matar. Há mais brincadeiras com a bipolaridade do que preocupação com o verdadeiro transtorno bipolar. Mais do que um problema pessoal interno, que quase sempre é externalizado, um perigo para todos.

Confesso estar com medo. Odeio sentir medo. E afinal quem realmente gosta? Não queria ter atirado aquelas palavras contra a tela, que hoje, mais do que trincada, me faz agonizar com o seu possível destino. Também não queria ter feito o que fiz, afinal, ficar em maus lençóis parece ser minha especialidade desde que te conheci. Ah, se pudesse voltar no tempo. Não teria, nunca, vivido aquele dia. Ao menos não ao teu lado.

Tuas ameaças , bem como teu corpo, ainda me fazem vibrar. Mais do que um jogo qualquer, já está virando piada. Um cubo mágico, eu, particularmente, nunca consegui resolver. Espero que desta vez eu consiga. 

Embaralhe Mais Uma Vez

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Ela segurava aquelas cartas com tanta delicadeza e felicidade que nem parecia estar jogando. Usava luvas de veludo pretas, um anel de diamantes negros e tinha um batom quase tão vermelho quanto sangue ruim. Sua feição criava e recriava um espectro em minha amarga alma. A garota era um veneno, e não media esforços para conseguir o que queria, no jogo, no amor, no trabalho, na vida.

Estava lá, sentada a leste, numa mesa redonda. Jogava com mais três pessoas. A cada cartada ela sentia seu peito vibrar em luto pela arma descartada. A cada vitória ela sentia duas mãos tremerem a felicidade em sensíveis picos de adrenalina. Não poupava risos, mostrava seu sorriso todas as vezes que conseguia. Também não poupava palavras, que geralmente, de tão frias, contrastavam com sua expressão e deixavam o ambiente em um clima ameno (de guerra).

Por vezes ficava séria ao esperar o momento certo pra rir de novo. Nas pausas dramáticas que fazia antes de usar um coringa tentava ficar pronta para captar toda a energia fugas do desapontamento que viria no olhar de seus companheiros de jogo. Atacava como rainha, mesmo que apenas em seu ‘reino mental’. Reino que era dominado pelo fogo, dando margem a interpretação de seus colegas, que muitas vezes a compararam com o próprio diabo.

É óbvio que não era de toda malévola, tinha lá seus suspiros de criança ao se decepcionar. Também mostrava traços de ingenuidade ao falar certas frases. Mas mesmo assim continuava lá, fria como a neve, dura como pedra. Não se deixaria derrubar. Uma “Dama De Ferro”? Acho que ela prefere “Rainha De Copas”! Talvez sim, talvez não. Talvez apenas mais uma carta no baralho.


Cores Amargas

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Sinceramente me sinto num ponto inalcançável por mim mesmo. Não consigo mover meus braços sem sentir a dor aguda de meus ossos trincando. Não consigo mover meus olhos sem agonizar com a terrível dor de dilatar veias. Não consigo mais falar uma frase racional sem pensar no quanto você havia me machucado.

Meu maior erro foi tentar mudar por você. Meu maior erro foi ter beijado a boca casta de lábios venenosos que lhe pertence. Meu maior erro foi tentar me encontrar, ao invés de me perder de vez.

Sempre me apaixono pelo que não devo, mas se beber minha alma de novo, eu prometo, prometo que vai dar certo, ao menos desta vez. Nem sou a mesma contradição ambulante de antes. Sem sereias, sem cartas jogadas ao vento á meia-noite, sem essa vontade de você.

Por favor, não solte mais palavras ao alto sem se preocupar onde elas vão cair. Por favor, não me compare aos fantasmas que te assombram a noite. Por favor, me deixe explodir. Explodir em cores.

|Imagem: Retrato Frida Kahlo Pop|

Onze: Contradição

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Esperando o trem das onze não via os minutos passarem. Meu relógio parecia ter parado no tempo, literalmente. Eu queria que aquele trem chegasse logo, depois de um dia cansativo de trabalho, só precisava chegar em casa. Já tinha parado de me lamentar por aceitar este emprego do outro lado da cidade, mas nunca tinha estado tão arrependido quanto agora.

Até que o ponteiro do relógio resolvesse se mover, eu olhava para aquela menina, tão triste, de olhos negros brilhantes. Ela estava sentada no banco, tão serena, esperando algo, alguém, esperando a vida. Imagine só! Tudo que ainda teria pra viver! As inseguranças do primeiro beijo, a primeira viajem sem os pais, o primeiro dia de aula no ginásio, as primeiras decepções amorosas, inseguranças com o corpo, vitórias, derrotas, tudo! Conseguia me ver naquela menina, era como se fosse um espelho que refletia minha alma, minha alma incapaz. Apesar de todas as considerações do momento, a menina, minha alma, o trabalho, a vida, o que mais me importava era o tempo. Afinal, porque não passava?

A menina continuava ali, parada, como o tempo. Segurava aquela boneca de pano como se fosse um diamante raro e extremamente precioso. O movimento que a menina fazia com seus pés, vestindo aquele "all star" verde era hipnotizante, só conseguia me desligar do vai e vem psicodélico para olhar meu relógio e ver -mais uma vez- que ainda não havia passado muito tempo. Os cabelos da menina pareciam ser tão macios! Ah, aqueles cabelos negros repicados! Poderia me perder facilmente naquele labirinto embaraçado. Mergulhar num mar de possibilidades. Era como se eu- mesmo a um ou dois metros de distância - pudesse sentir o cheiro de chocolate que seus cabelos exalavam. Ela era diferente, eu sabia, eu sei que é.

Percebi que a menina levava uma mochila nas costas. Uma mochila vermelha. O zíper estava semiaberto e por acaso –ou não- consegui ver o livro que carregava. Meu espírito curioso queria muito saber que livro era aquele. Parecia ser bem velho, com várias marcações. Também tinha uma pasta. Quantos segredos podiam estar guardados dentro daquela mochila? Quantas histórias aquela menina encantadora, porém obscura, poderia me contar? Fascinado com a pequena menina que me despertara tantas emoções, resolvi ir falar com ela. Antes de tomar tal atitude, olhei, sem me importar tanto, para o relógio. Eram onze horas! Meu trem já me esperava. Entrei apressadamente, lamentando por não ter conversado com a menina antes. Pela janela, vi uma mulher fumando um cigarro puxando a menina pela mão. A menina olhou para trás apenas uma vez, mas me disse tudo com aqueles grandes olhos negros. A menina se foi.  Afinal, porque o tempo tem que passar tão rápido?

Confissões Entrelinhas

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Acordei, fui ao banheiro e parecia que eu estava chorando muito. Meu rosto estava inchado e meus olhos e nariz estavam vermelhos. Na pia, toda suja de tinta vermelha, estavam pétalas de rosas brancas e uma espécie de espuma. Resolvi pensar um pouco, e não conseguia lembrar porque estava assim. Depois de um tempo, roendo minhas unhas no escuro e escutando minhas músicas preferidas, tento não pensar em amor, ou algo do gênero, mas é isto que está fazendo meu mundo girar agora. Girar, ou cair, ainda não sei ao certo. Quando penso em melhorar, e esquecer o mundo lá fora, começa aquela música. Músicas tem esse poder. Elas mudam seu estado de espírito. Sinceramente "Beatles" nunca me deixaram tão emotivo quanto neste dia. Quando você começa a ficar triste você não quer mais voltar atrás, apenas quer continuar triste. Pelo menos por um tempo, ou até tudo escorrer pelos olhos.

Olhando vagamente os ponteiros do relógio, percebo que a cada dia as horas passam mais devagar e tudo cai num vazio tão profundo, que é mais fácil dizer o que é que não está me machucando. Eu ainda não acreditava que tínhamos terminado. No momento posso me definir frustrado, entregado, desesperado, jogado fora, e literalmente cansado. Cansado de levar uma vida tão distante das coisas boas. E com isso eu não quero dizer "sexo, drogas e rock n'rol". Meu plano não está funcionando. Na verdade eu descobri pouco tempo atrás que realmente eu tinha um plano. Posso imaginar o futuro, não tão distante, na verdade um futuro bem próximo. Não sei se tudo vai passar ou se isso é apenas uma estratégia de fuga da minha alma. Afinal, a última fuga não deu muito certo, meus pulsos já não estão mais intactos. E eu estraguei tudo, aliás, eu sempre estrago. O problema é saber que a culpa não é somente sua, e querer carregar o peso em suas costas. Então, o meu problema é ser quem sou? Espera aí, não dizem as más línguas de boas cabeças que ser único é bom? Ou será que isso é uma frase de alguma propaganda contra o preconceito? Não sei, são tantas perguntas e nenhuma resposta. E eu estou ficando mais irritado. As emoções estão borbulhando, como água fervendo, como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Resolvi levantar da minha cama, arrumar meu quarto e tomar um banho. Quando abri a primeira gaveta do criado mudo, vi uma foto nossa. Estávamos deitados na grama da praça, perto daquela árvore em que entalhamos nossas iniciais. Realmente, era um amor idealizado. Fui ao banheiro jogar uma água no rosto, e vi você no reflexo do espelho. Não parava de pensar em nós, e como você me fazia ser quem eu sou. Vejo no corredor uma blusa no chão. Era sua blusa, aquela vermelha, que tinha esquecido aqui em casa e eu nunca devolvi. Ainda sentia seu cheiro nela, podia sentir você me abraçando. Voltei ao quarto e procurei assiduamente um livro. Ainda não sabia que livro estava procurando, podia ser Caio Fernando de Abreu, ou Clarice Lispector, queria apenas me entorpecer com palavras que me fizessem ficar melhor. Jogado em baixo da cama estava um livro. Antes de pegar eu já sabia, era Caio. Mas como podia saber? A página 27 já estava marcada, era o nosso poema. Não consegui ler, estava sujo. Parecia ser tinta vermelha, sangue, suco de tomate, ou algo assim. Resolvi então voltar a minha aconchegante cama, quando estico meu braço para poder me cobrir com o edredom, observo eu tinha algo embaixo dele. Uma faca, suja, como tudo naquele dia, desde minha alma, aos objetos na minha casa. Imaginei ter usado para cortar alguma comida, sempre jantava e almoçava no quarto.

Alguns segundos depois, meu celular começa a tocar. Difícil achar no meio de toda aquela bagunça.  Era Samanta, sua melhor amiga, é incrível como não parava de pensar em você. Tudo e todos me remetiam a sua imagem. Pensei duas vezes antes de atender. Minha cabeça estava pesada, minha voz rouca, mas sabia que se não a atendesse, ela viria pessoalmente. Resolvi dar uma chance para a garota. Quando disse que estava na linha, logo escutei Samanta chorando, soluçando, sem parar. Ela não me deu brecha alguma para falar, e disse que ia ser direta. Falou que tinha acontecido uma tragédia, um assassinato. O crime foi hediondo, ele usou uma faca para degolar, e escrever no corpo da vítima uma citação de Caio Fernando de Abreu. Em todo o local do crime estavam espalhadas rosas brancas. Por fim, Samanta disse que esperava que eu ficasse bem, afinal não fazia nem oito dias que eu e a “vítima” tínhamos terminado um relacionamento de quase um ano.

Corcunda-te

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Quanto mais tento fugir desta carne que me prende e me envolve delicadamente, mais fico ligado a ela. Os sons estão vibrando dentro de mim e fazendo meus ossos quebrarem. Agonizar em dores. Mais do que minha carranca de Quasimodo, sinto segredos escapando de minhas costas corcundas. A necessidade de atenção passou dos limites, pessoas como eles me deixam nauseado. Minhas sereias internas suspendem meus órgãos e elevam meu ego. Meu mar já não é mais o mesmo.

Sentir o calor do sol em brumas sem fim me faz mais nostálgico do que a cinco minutos atrás. Derramar lágrimas salgadas é desperdiçar a água que faz as sereias respirarem. Derramar sangue ainda é mais fácil. Gotas de sangue que coloco em pequenas garrafas e armazeno em caixas. Sim, ainda guardo caixas no fundo do guarda roupas. Ainda guardo sentimentos em caixas. Pessoas em caixas. Momentos em caixas. Futilidades a parte, continuo a sentir os ossos quebrando, quebrando e se reconstituindo rápido, só pra poder quebrar mais uma vez.

Playlist de Domingo

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Acordei leve. Geralmente acordo tão cheio que nem me preocupo em pensar se estou realmente bem. Mas , as vezes, não é bom acordar cheio? Cheio de outras coisas [...] Sinceramente espero que este domingo seja melhor do que o último (como sempre).

Vanessa Da Mata - Ai Ai Ai


U2 - Vertigo


Red Hot Chilli Peppers - The Adventures of Rain Dance Maggie

                                          

Ke$ha - Die Young


Raul Seixas - Gita

                                          

Clichê Reflexivo

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Um dia vou olhar pra trás e ver tudo que deixei passar. Oportunidades, pessoas, amores. Neste dia, espero ver aonde cheguei – se é que chegarei a algum lugar – e não me arrepender de nada.

Já repeti pro espelho umas cem vezes, não preciso mais. Afinal, ‘clichê’, saindo da minha boca, é desnecessariamente clichê. Não que você não seja. 

Águas Profundas

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Era um dia qualquer, mais precisamente uma tarde de inverno caloroso, em que conheci a minha sereia. Óbvio que não sabia que aquela criatura franzina, magra e que me deixava tão atraído por seu sorriso amarelo era uma majestosa sereia, mas já sentia que algo muito forte nos unia e afastava. Na primeira vez que saímos de fato, não esperava ficar tão hipnotizado com sua capacidade intelectual e aqueles olhos ora verdes, ora não, que me faziam perder num labirinto do qual eu não deixaria de sair nunca. Mas foi o que aconteceu.

Quando conversávamos toda aquela fumaça azul esverdeada que saia da boca dela preenchia todo o espaço entre nós, e me deixava num frenesi tão incrível que não conseguia terminar uma frase que fosse. Quando ela falava dos seus livros, sua capacidade de amar âncoras e grandes extensões de água, as palavras vinham como balas, que atravessavam meu peito e me faziam sangrar com prazer. Depois da primeira vez em que ela, mesmo sem querer, havia me machucado com suas palavras, eu percebi. Era ela a sereia que estava esperando por tanto tempo. 

Infelizmente descobri que a sereia tinha uma espécie de pacto. Não sei ao certo se era um pacto amoroso, de sangue, com o diabo, Netuno ou por divertimento [...] A única coisa que eu sabia é que tinha que destrui-lo, a sereia tinha de ser minha! Depois de manipular a situação, finalmente descobri e destruí o pacto que unia a sereia com um humano tão deplorável que prefiro abstrair de minhas lembranças. A atitude inconsequente não me fez chegar mais perto dela, apenas nos afastou por alguns dias.

Quando voltamos a conversar, a sereia já não era mais a mesma. Livre de pactos e barreiras era como se me apaixonasse por ela cada dia mais. Assim como minha paixão, também aumentava a força que nos unia, e ao mesmo tempo afastava. Chegamos a flutuar horas e horas sem falar uma única palavra. Mesmo assim, a boca carnuda, porém pequena, os olhos levemente puxados e a feição doce, delicada, sensual e cheia de malícia que possuía me atraiam mais a cada dia. Além, é claro, das palavras que sempre me feriam e me deixavam nas nuvens de prazer.

Já faz algum tempo que não a vejo, espero que não tenha voltado para o poço profundo e escuro no qual nunca deveria ter entrado. Espero que esteja livre, e de minha parte está. Sem minhas palavras consideradas agressivas, meu ciúme obsessivo, e minha capacidade de deixa-la mais mal do que cinco minutos atrás. Encontrei minha sereia, mas será que ela me encontrou? Será que eu realmente quero uma sereia? Perguntas e mais perguntas.

Pessoas vem e vão, eu fico.

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É impossível agir sem pensar, não posso mais usar essa desculpa, nem meu espelho acredita nela. Sim, fiz tudo de caso pensado. Começo amizades porque quero pessoas. Termino amizades porque tenho outras em mente. Um grande jogo de interesses. Você pensa que me conhece, mas apenas conhece o que eu quero que conheça. O ‘meu eu’ que você conhece  é apenas uma pequena parte de mim. Minhas várias faces constituem o que sou. E o que sou? Uma grande mentira.

Ultimamente não acredito mais em fadas, não  gosto mais de cores vibrantes, me irrita escutar qualquer som no volume alto. Odeio cada vez mais gritos. Seus gritos, gritos de todos. Principalmente os que ecoam dentro de mim. Não gosto mais de olhar no espelho, odeio escutar a palavra casamento, não acredito mais em signos, fico excitado ao ver pessoas que amo sangrando, não jogo mais dados, meu plano de fundo é sempre cinza, amo cada vez mais ossos e odeio o fato de não ter nenhum  aparente.

Minha relação com a água e seus seres já não é mais a mesma. Fico em frenesi quando tomo banho. Meus sonhos estão cada vez mais macabros, não aguento mais me afogar em piscinas de sangue. Estou apaixonado pelo mundo e ao mesmo tempo o odiando. Minha sereia morreu, ou pelo menos está mergulhando faz um bom tempo. Acho que a superfície está melhor sem ela. Descobri que posso fazer sexo. Descobri que não quero fazer sexo. O gigante espelho da sala me irrita. Meu reflexo me irrita. Sexo seria refletir em outra pessoa o quanto me odeio.

Nesta corrente elétrica de sentidos eu me perco e me defino, mesmo assim, ainda não sei se estou acordado.