Já perdi as contas de quantas vezes o final mudou, a grande
medalha, o pote de ouro, o troféu. Nestas fases incertas, as quais nos taxam
durante toda a vida, meu objetivo nunca foi o mesmo. Hoje, mais do que tudo,ele
se define na simples, porém árdua, atitude de limpar as lentes dos meus óculos.
Busquei durante toda esta jornada cansativa, e, diga-se de
passagem, prazerosa, uma flanela limpa. Um pedaço de pano, não qualquer pedaço
de pano, afinal não quero riscar minhas lentes, tornando minha visão ainda mais
desgostosa. Um pano macio, talvez uma manga com cheiro de amaciante.
Deleitar nossos olhos com cenas marcantes nunca foi difícil,
difícil é fazer com que enxerguem –vocês– a beleza das pequenas coisas. É mais
do que um par de óculos precisando de uma limpeza, são milhões deles, em todos
os lugares. Milhões de mentes precisando de uma faxina. Uma faxina que, é
claro, deixe peculiaridades subjetivas em pé, e extermine apenas os coliformes
que formam seu pré-conceito ao analisar aquela, esta, qualquer figura. Você
pode fazer a limpeza sozinho, mas se precisar de ajuda, ah, uma empregada
doméstica não está cobrando barato.
Não entendo esta necessidade de embaçar as lentes alguns
minutos após serem limpas. Cobrir o sol com a peneira não vai adiantar, não por
muito tempo. As reles réstias de luz vão fazer o rosto esquentar, arder, demore
quanto tempo for. Precisará de um guarda-sol, mas, como vai encontrá-lo -no
meio da bugiganga do sótão- com as lentes sujas?