TRANSCEDENCÊNCIA

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Muitas vezes com corpo de arqueduto,
Prefiro preencher meus espaços sólidos
Com a abstração dos sentimentos.
Sentimento que agora é meu, mas quase sempre
Prefiro, preciso, que venha de você. 
E nessa incessante busca do meu eu por um eu,
Me perco nos labirintos da velha alma num novo corpo.
Ah! Acho que se eu me achasse não faria tanto sentido, 
Me perderia novamente. 
Buscas, procuras. Com, sem. 
Minha vida não precisa de um quociente, para ter um sentido.
Minha vida precisa de um sentido, para ser vida. 
Pra ser vivida.
Vidar ou viver? 
Várias facetas de um novo mundo velho. 

EGOCENT(RISM)O

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Abri a janela, entrei nos tempos de inverno quente. Meu ego continua andando pelas avenidas com uma toca de tricô, uma bengala de marfim caro e seus óculos escuros Dolce&Gabana. Minha extrema futilidade continua tecendo tapetes para que eu mesmo possa sujar. Ser fútil me faz esquecer a dor, dor que –ao que me parece– já se foi. Afinal, meus espelhos já não refletem gotas de sangue. Minhas feridas já estão mais do que cauterizadas. Cauterizadas pela raiva. Raiva que me fez pintar o céu de cinza por mais vezes que pude contar. Raiva que me fez andar numa corda bamba entre cérebro e coração. Raiva que me fez ser assim, tão fútil, tão eu. 

Parede Branca

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Poderia ficar sentada naquele banco por mais seis horas que nunca conseguiria entender. Culpar a minha família numa hora dessas seria muita falta de senso moral. O inferno deve ter congelado, afinal tive um - ao menos um - pensamento que considerei correto. Já não sabia mais o que fazer, meus olhos pareciam estar sendo pressionados e uma dor angustiante tomara conta das minhas têmporas. Massageá-las tornou-se praticamente impossível com a ponta dos dedos tão gélida.

Na noite em que saí de casa não pensei que me tornaria este monstro. Na verdade, eu já era, só faltava deixar sair. Mesmo sem poder contar, sabia que a cada hora que passava, meus olhos doíam mais. Ardiam em chamas de culpa. Se alguém faz algo ruim a você, você retribui, não é mesmo? Mesmo com as mais diversas desculpas, eu ainda me culpava. E provavelmente continuaria me culpando, para sempre. Não há outra coisa para pensar aqui.


Perdia-me no labirinto branco que se formava na parede. Parede branca. Imaginava mil maneiras de me livrar do peso que estava sobre mim. Eu ainda escutava minha mãe me chamando. Ela gritava sem parar meu nome. Lúcia! Lúcia! E as palavras tornavam-se uma fumaça lilás que preenchia todo o espaço entre mim e a parede. Parede Branca. Desta vez toda branca, sem sangue algum, nem de mamãe, nem de ninguém. Sabia que tinha feito algo errado. Tudo bem, aceito a condenação. Mais alguns anos nesta solitária vão me fazer bem.

Necessidade: Nebulosa

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Já perdi as contas de quantas vezes o final mudou, a grande medalha, o pote de ouro, o troféu. Nestas fases incertas, as quais nos taxam durante toda a vida, meu objetivo nunca foi o mesmo. Hoje, mais do que tudo,ele se define na simples, porém árdua, atitude de limpar as lentes dos meus óculos.

Busquei durante toda esta jornada cansativa, e, diga-se de passagem, prazerosa, uma flanela limpa. Um pedaço de pano, não qualquer pedaço de pano, afinal não quero riscar minhas lentes, tornando minha visão ainda mais desgostosa. Um pano macio, talvez uma manga com cheiro de amaciante.

Deleitar nossos olhos com cenas marcantes nunca foi difícil, difícil é fazer com que enxerguem –vocês– a beleza das pequenas coisas. É mais do que um par de óculos precisando de uma limpeza, são milhões deles, em todos os lugares. Milhões de mentes precisando de uma faxina. Uma faxina que, é claro, deixe peculiaridades subjetivas em pé, e extermine apenas os coliformes que formam seu pré-conceito ao analisar aquela, esta, qualquer figura. Você pode fazer a limpeza sozinho, mas se precisar de ajuda, ah, uma empregada doméstica não está cobrando barato.

Não entendo esta necessidade de embaçar as lentes alguns minutos após serem limpas. Cobrir o sol com a peneira não vai adiantar, não por muito tempo. As reles réstias de luz vão fazer o rosto esquentar, arder, demore quanto tempo for. Precisará de um guarda-sol, mas, como vai encontrá-lo -no meio da bugiganga do sótão- com as lentes sujas?

Playlist De Quarta

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Talking Heads - Psycho Killer



System Of A Down - Lonely Day



Foster The People - Call It What You Want


Melanie Martinez - Toxic 


Legião Urbana - Tempo Perdido







Artefato De Fogo

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Nunca tive medo da morte, meu medo é da capacidade de certas pessoas de matar. Há mais brincadeiras com a bipolaridade do que preocupação com o verdadeiro transtorno bipolar. Mais do que um problema pessoal interno, que quase sempre é externalizado, um perigo para todos.

Confesso estar com medo. Odeio sentir medo. E afinal quem realmente gosta? Não queria ter atirado aquelas palavras contra a tela, que hoje, mais do que trincada, me faz agonizar com o seu possível destino. Também não queria ter feito o que fiz, afinal, ficar em maus lençóis parece ser minha especialidade desde que te conheci. Ah, se pudesse voltar no tempo. Não teria, nunca, vivido aquele dia. Ao menos não ao teu lado.

Tuas ameaças , bem como teu corpo, ainda me fazem vibrar. Mais do que um jogo qualquer, já está virando piada. Um cubo mágico, eu, particularmente, nunca consegui resolver. Espero que desta vez eu consiga. 

Embaralhe Mais Uma Vez

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Ela segurava aquelas cartas com tanta delicadeza e felicidade que nem parecia estar jogando. Usava luvas de veludo pretas, um anel de diamantes negros e tinha um batom quase tão vermelho quanto sangue ruim. Sua feição criava e recriava um espectro em minha amarga alma. A garota era um veneno, e não media esforços para conseguir o que queria, no jogo, no amor, no trabalho, na vida.

Estava lá, sentada a leste, numa mesa redonda. Jogava com mais três pessoas. A cada cartada ela sentia seu peito vibrar em luto pela arma descartada. A cada vitória ela sentia duas mãos tremerem a felicidade em sensíveis picos de adrenalina. Não poupava risos, mostrava seu sorriso todas as vezes que conseguia. Também não poupava palavras, que geralmente, de tão frias, contrastavam com sua expressão e deixavam o ambiente em um clima ameno (de guerra).

Por vezes ficava séria ao esperar o momento certo pra rir de novo. Nas pausas dramáticas que fazia antes de usar um coringa tentava ficar pronta para captar toda a energia fugas do desapontamento que viria no olhar de seus companheiros de jogo. Atacava como rainha, mesmo que apenas em seu ‘reino mental’. Reino que era dominado pelo fogo, dando margem a interpretação de seus colegas, que muitas vezes a compararam com o próprio diabo.

É óbvio que não era de toda malévola, tinha lá seus suspiros de criança ao se decepcionar. Também mostrava traços de ingenuidade ao falar certas frases. Mas mesmo assim continuava lá, fria como a neve, dura como pedra. Não se deixaria derrubar. Uma “Dama De Ferro”? Acho que ela prefere “Rainha De Copas”! Talvez sim, talvez não. Talvez apenas mais uma carta no baralho.